No
livro Conscientização, teoria e prática da libertação: uma introdução ao
pensamento de Paulo Freire nos apresenta como se originou a categoria
conscientização nos escritos freireanos. O livro apresenta-se com vários
participantes, incluindo Freire, que descreve sobre o início de sua trajetória
histórica até seu refúgio para o exílio. A obra ainda destaca a defesa de Paulo
Freire no tocante a uma prática político-pedagógica, que apresente equidade
entre os educadores e os educandos na construção de um caminho mais harmônico
em busca do saber.
Paulo
Freire evidencia o processo de formação de uma consciência crítica em relação
aos fenômenos da realidade objetiva que é apresentada por meio da
interdependência entre o compromisso ético-político-social e o fazer
pedagógico. A partir da leitura desta obra, é possível observar que estamos em
pleno desafio de sermos indivíduos em constante mudança, para assim
reinventarmos a nossa prática educativa; pois o conhecimento não se dá fora do
processo de conscientização. Conhecer a conscientização de Freire não se trata
apenas de conhecer a realidade e descrevê-la, mas sim, trata-se de reconhecer e
modificá-la, repoblematizá-la com o intuito de superar desafios no interior da
comunidade na qual aquele sujeito está inserido. Implicando, desta forma, em um
compromisso com a sociedade e com nós mesmos, como sujeitos que fazem e refazem
o mundo e sua própria história.
É
necessário definir conscientização. Ela, a conscientização não está baseada
sobre a consciência, de um lado, e o mundo, de outro; por outra parte, não
pretende uma separação. Ao contrário, está baseada na relação consciência –
mundo.
A conscientização é uma categoria em que
Freire evidência o processo de formação de uma consciência critica em relação
aos fenômenos da realidade objetiva. Nesse sentido a transformação passa
necessariamente pelo desenvolvimento coletivo de uma consciência critica sobre
o real, e, portanto pela superação das formas de consciência ingênua. É
importante que neste processo de conscientização os sujeitos se reconheçam no
mundo e com o mundo, havendo a possibilidade de que, na transformação do mundo
haja uma transformação de si mesmo. Pensando num sentido politico de
conscientização de acordo com Freire, abrange a consciência de classe, como o
processo pelo qual as classes desfavorecidas se reconhecem enquanto classe.
Mas,
para Freire isto ainda não bastava, era necessário ir além. Era preciso uma
conscientização crítica, dito de outra forma, seria um olhar diferente sobre o
meio onde se esta inserido. No entanto, para que o indivíduo chegasse a essa
consciência ele deveria percorrer alguns caminhos: passaria primeiro por uma
tomada de consciência, mas essa ainda não seria a crítica. Pois o indivíduo
ainda perceberia a realidade de uma maneira ingênua, ou seja, apresentaria um
quase “incompromisso” com a existência. Por isso, neste: “[...] nível
espontâneo, o homem, ao aproximar-se da realidade, faz simplesmente a
experiência da realidade na qual ele está à procura (Freire, 2005, p. 30)”.
Já
em um segundo momento, ele chegaria à conscientização, que seria um
desenvolvimento crítico da tomada de consciência: [...] “A conscientização
implica, pois, que ultrapassemos a esfera espontânea de apreensão da realidade
para chegarmos a uma esfera crítica [...] (Freire,2005, p.30)”. Seria o que
Paulo Freire denominou de práxis, pois esta faz com que o indivíduo esteja
frente à realidade de opressão que o cerca, a saber: analfabetismo, crises
políticas e sociais; aspectos que empurram o cidadão comum a uma condição
subalterna diante das classes dominantes.
O
desenvolvimento de tal nível de consciência acerca das relações sociais de
produção que compõem a realidade objetiva é, neste sentido, a arma de luta dos
oprimidos para vencerem a opressão. Diante deste arcabouço teórico, proposto
pela compreensão de Paulo Freire frente à conscientização para o processo
educacional, acreditamos que a formação de professores de Educação Básica
também deve ser considerada um ato da “práxis educativa”. Para, assim, incitar
nos participantes destes cursos o desejo de lutar não só pela liberdade dos
seus alunos, mas, acima de tudo, serem agentes da sua própria liberdade
enquanto educadores. Desvestindo, quem sabe definitivamente, o nosso sistema
educacional da “roupagem alienada e alienante” (FREIRE, 1979, p. 36).
Por
isso, que a formação do educador deve estar pautada em uma educação
conscientizadora, que rompa com a ideologia de uma sociedade neoliberal.
Apresentando-se como uma formação democrática em que formadores e formandos
estejam em constante dialogismo. Portanto, faz-se necessário que essa contribua
na construção de sujeitos críticos e autônomos sobre sua prática.
É
assim que a educação, sem a qual a transformação não se faz, quando voltada
diretivamente para uma prática da liberdade inclui neste processo
necessariamente o desenvolvimento de uma consciência crítica em relação à
liberdade que condiciona as pessoas socialmente. Neste sentido, a formação de
uma consciência critica em conjunto com grupos é a condição fundamental para a
transformação, ou seja, a base da sustentação para a produção de uma nova
organização social onde não se negue aos seres humanos a sua razão de existir,
a busca continua do vir a ser ou a busca do ser mais.
Para
Freire a conscientização é tomar posse da realidade; por esta razão, e por
causa da radicação utópica que a informa, é um afastamento da realidade. A
conscientização produz a desmitologização. Quanto mais conscientizados nos
tornamos, somos capazes de anunciar, denunciar, refletir e tomar atitudes que
gerem transformação.
Dessa
forma, entendemos que Paulo Freire, especialmente o livro Conscientização,
teoria e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire
estava totalmente convencido de que a educação precisaria ser vista como
prática para a liberdade.
A
aprendizagem não pode ser monolítica, verticalizada, mas, sim, praticada de
forma horizontal entre o formador e o formando. Buscando coletivamente uma
educação conscientizadora e libertadora. Numa troca constante de conhecimentos.
É preciso que o formador crie possibilidades, para que o sujeito - que se
apresenta em um nível de conhecimento “ingênuo” ultrapasse para o nível de
conhecimento “crítico”- chegue, portanto, a conscientização e libertação.
Mas,
mesmo atingindo certo grau conscientização ainda não poderia se dar por
satisfeito. Freire (2005) nos diz que: “[...] A criação da nova realidade, tal
como esta indicada na crítica precedente, não pode esgotar o processo da
conscientização. A nova realidade deve tomar-se como objeto de uma reflexão
crítica.” [...] (Freire, 2005.p.31) Na verdade, a cada descoberta, a cada
“solução” devemos questionar: Até que ponto descobrimos uma nova realidade? A
conscientização, como atitude crítica se presentará como um “circulo vicioso”
jamais será terminada.
A
formação de uma consciência crítica coletiva é a condição fundamental para a
transformação, ou seja, a base de sustentação para a produção de uma nova
organização social onde não se negue aos seres humanos a sua razão de existir:
a busca constante do vir a ser, ou o ser mais.
Partindo
da visão dialética da relação ser humano/mundo, ambos inacabados, Paulo freire
desenvolveu sua compreensão acerca de uma Educação como Prática de Liberdade,
sobre a qual, nós, seres humanos, na constante busca de sermos mais,
transformamos a realidade objetiva e os efeitos desta transformação refletem-se
na transformação de nós mesmos. Por isso é que Paulo Freire diz que será pelo
aprofundamento de uma consciência crítica que nos conscientizaremos da
realidade, sendo capazes de transformá-la, pois a consequência da
conscientização é o compromisso dos seres humanos com o mundo, já que
criticamente conscientes de nossa realidade de opressão, seremos capazes de
realizar uma ação que vise sua superação.
Compromisso
com o mundo e, portanto, também com nós mesmos, como sujeitos que fazem e
refazem o mundo e assim sua própria história. Neste instante, a conscientização
não se encontra mais somente na relação consciência/mundo, mas transcende, convidando-nos
a assumirmos uma posição utópica frente ao mundo.
Saber que não apenas estamos no mundo,
mas com o mundo e também pelo mundo; da mesma forma, que somos seres
condicionados e não determinados, e que, portanto, nossa possibilidade de
transformar a realidade que nos oprime e nos explora é a mesma possibilidade
dialética que rege a história da humanidade e nos permite produzir novas formas
de viver em sociedade. Saber que sonhar o sonho coletivo, que é um sonho
acordado, real, passa pelo desejo de uma forma justa, fraterna e humana de
viver em sociedade; este é o primeiro passo para a transformação social. Saber
que a utopia é possível.
A conscientização, no modo como a compreendemos, é o processo de
desenvolvimento de saberes verdadeiro a respeito das condições materiais nas
quais os indivíduos se encontram seu papel no modo de produção, sua situação de
classe. O movimento de transformação – mudança radical da forma – da prática
social dos indivíduos requer primeiro, uma mudança tal em sua compreensão de
mundo, que suas ideações se deem no sentido do desenvolvimento de práticas
condizentes com a vocação ontológica do ser humano, que é superar sua condição
desumanizadora que lhe impõem o atual modo de produção.
Os saberes hegemônicos que nossa sociedade desenvolve são saberes que
dissimulam a existência das relações opressivas nas quais está ancorado o modo
de produção das condições materiais de reprodução da própria sociedade. A
Educação como Prática de Liberdade é, assim, o movimento contra hegemônico de
produção de saberes que denuncia a luta de classes, que no sentido freireano,
pronuncia o mundo para poder modificá-lo, que quer possibilitar ao indivíduo
desenvolver a consciência real sobre as relações que o oprimem.
A luta de classes é, não exclusivamente, mas, sobretudo, uma luta pela
consciência do proletariado, o movimento histórico da burguesia sobre a classe
trabalhadora no sentido de impedir o desenvolvimento de sua consciência de
classe, neutralizar a sua mais valiosa arma de luta. Quanto mais o oprimido
conhecer sobre a sua situação de opressão, tanto mais lhe será possível
desenvolver práticas sociais cuja consequência se materializará na forma de
outro mundo possível e necessário.
Pelo exposto podemos compreender que somente nós, seres humanos, somos
capazes de agir conscientemente sobre a realidade objetivada, pelo poder da
ideação, que consiste em conseguirmos projetar em nosso cérebro o resultado
daquilo que faremos o que nos difere dos animais, cuja prática é fruto de
instintos, por se tratarem de seres de contato e não de relações como nós. Por
esta condição de seres de relações, de seres sociais que fazem a própria
história, está nas mãos da humanidade a possibilidade de romper com as relações
opressivas de produção que se apresentam como um empecilho à humanização do
humano.Paulo Freire chama a conscientização de compromisso histórico, pois
implica no nosso.
Assim é que cada relação dos seres humanos com a realidade apresenta-se
como um desafio ao qual precisa ser respondido de maneira original, pois não há
modelo típico de resposta, senão tantas respostas quantos são os desafios, logo
a resposta que cada um de nós dá a um desafio não transforma apenas a realidade
com a qual nos confrontamos, mas a nós mesmos, cada vez mais e sempre de modo
diferente.
